E A C O E L H O

UM PRETENSO POETA

Textos

DOENÇA ANTROPOLÓGICA

Muito se fala em corrupção, em suborno, em conchavos, carteis e outras subversões sociais e, porquê não, culturais.

Evidente que a mais aviltante, mais carrasca, mais vil, é a corrupção dos poderes constituídos, principalmente do Legislativo, cujo atividade fim é o controle das ações do poder executivo e a preservação dos interesses sociais.

A corrupção no poder legislativo, em qualquer das três esferas, creio seja definitivamente o câncer social maior, pois, corrói a base do estado - dali  emerge o verdadeiro poder do povo, para o povo. Se esse poder é corrompido, todo o estado e a sociedade como um todo fica corrompida já em suas raízes.

Cada centavo desviado das verbas, das obras, dos serviços, é bem pior que roubar pirulito da boca de uma criancinha; esses centavos foram arrecadados da sociedade, via impostos e são destinados principalmente a manutenção e equilíbrio social e a preservação das condições gerais do desenvolvimento do país, inclusive, da sua soberania. Quando esse desvio já se faz na elaboração de leis que já nascem para cobrir tais falcatruas, tanto pior.

Temos a outra atrocidade social, cometida em todos os cantos, que é a sonegação. Pior que esta já não tem mais sido vista e tratada pela sociedade honesta, com um grande mau. Tenho a impressão que já nos acostumamos com a sonegação e consideramos como coisa cotidiana, quase normal. Já não estranhamos a sonegação, já a aceitamos como um mal intrínseco da atividade econômica. Isso também é antropologicamente penoso.

Justifica-se pelo “se vão roubar depois, que eu economize agora”. É... Sonegação já é sinônimo de “economia”, redução de custos, de austeridade empresarial. E nem riam. Não tem graça nenhuma, pois, é uma realidade que habita todos os quadrantes da atividade econômica.

Costumamos dizer e é correto dizer, que o exemplo deve vir de cima. Que na medida em que as grandes lideranças corrompem e são corrompidas, que roubam e deixam roubar, esse hábito, esse vício, esse crime socialmente nefasto é que vai contaminando o restante da sociedade e deixando de ser um desvio de conduta individual, para uma se transformar numa distorção moral coletivo, social.

Tenho pensado sobre isso, sobre essa questão do exemplo vir de cima. Concluo que a corrupção, a sonegação, a desonestidade tem origem na meio social comum. O de cima, nesse caso, é quem efetivamente manda, que é o povo como um todo. E não venham dizer que o povo não manda; se não manda é porque abdica, abre mão do mando por apatia política, por ingenuidade cultural, por preguiça social.

Se a grande maioria, que a meu ver é a parte de cima, “dá o seu jeitinho”, quem pela maioria é conduzido ao poder, segue o exemplo e vai se especializando e dando também o seu jeitão. Jeitão. O povo, aqui, ali, acolá, vai desviando, enganando, surrupiando, logrando, em migalhas. As autoridades delegadas o fazem em milhões, bilhões. O nome é o mesmíssimo. Corrupção. 

Temos, contudo, que considerar que resguardadas as proporções, a corrupção, a subversão, tem o mesmo nome, o mesmo sentido, desgraçada do mesmo jeito, tanto nas grandes lideranças como na mais simples atividade, no mais simples mortal. Só não corrompe ou não é corrompido quem não tem oportunidade. Evidente que exceções existem, mas são ínfimas, diante do universo da população.

Bem por isso tantos afirmam que a corrupção já é uma cultura que integra as relações todas, do menino a quem se oferece um presente se comer tudo, ao jovem que damos prêmio se obter boas notas, até a mais alta autoridade para facilitar as coisas para um “amigo”, em troca de uns “trocados”.

Essa “coisa” chamada corrupção já se aderiu a cultura da raça humana. Já é um caso para estudo antropológico e polícia nenhuma dá mais jeito. E sabemos que quando chegamos nesses extremos, somente começando tudo de novo, reiniciando os princípios do começo no âmbito do menor e mais transformador conjunto social, que é a família.

Então, temos é quase 200 milhões de corruptos nesse Brasil. Quem não corrompeu ou foi corrompido que atire a primeira pedra. Se pensarmos bem, não vai encher ao menos uma caçamba, pois, estamos todos com telhados de vidro, frágeis e transparentes.
EACoelho
Enviado por EACoelho em 04/01/2016
Alterado em 05/01/2016


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