E A C O E L H O

UM PRETENSO POETA

Textos

CERCA VIVA



Tenho um amigo recente, mas de uma convivência muito estreita e salutar, que recém comprou uma área de terra rural. Sei que foi um sonho antigo, embora ele seja jovem, pouco mais de 30 anos. Mas naquela localidade, guarda as raízes da sua infância camponesa.

Eu e minha musa, temos frequentado assiduamente o local, até porque esse amigo vem promovendo mutirões para fazer algumas melhorias na propriedade. Aliás, essa tal melhoria se limita, por enquanto, a renovar a cerca na frente da propriedade, cerca de 250 metros.

Neste último sábado, como faria aniversário no meio da próxima semana, resolveu fazer uma costela (fogo de chão) para os amigos mais achegados e claro já os convocou para irem pela manhã, para continuar a fazer os buracos e pelo menos fincar alguns palanques da tal cerca. Eu, claro, justificado pelos problemas cardíacos, tenho sido poupado da lida e fico só no bem bom, pondo fogo na churrasqueira, pegando uma latinha para um e outro. Ontem, fugi totalmente da lida e só fui a tarde, para não ter que subir e descer morro com latinhas para os manguaças.

Tudo muito bem. Muito churrasco, muita cerveja, muita cachaça. Muitos causos e muita risada, muitas daquelas gozações comuns nesses encontros. Só tem um problema; a dita cerca não anda. Já fazem meses, já se fez dezenas de mutirões, mas a cerca não sai, parece as obras públicas.

Ontem também não andou, ficando a justificativa por conta da chuva. E tenho uma leve impressão que a chuva ocorreu de tanto os "amigos" rezarem para chover e assim poderem se recolher aos ranchos disponíveis, para manguaçar e churrasquear, no pré-aquecimento para a costela fogo de chão, comemorativa ao aniversário do anfitrião, que já estava sendo preparada para a noite. Houve até quem confessasse, mais tarde, que havia rezado muito para chover e que São Pedro o havia atendido.

E foi nos papos furados da noite, ao calor do fogo de chão, ao molho da chuva teimosa que escorria lentamente do céu e aos papos mais inusitados, que o irmão do fazendeiro saiu com a pérola maior da noite.

Ele, pensativo, reflexivo, como se tivesse feito uma grande descoberta, expressou sua conclusão da forma mais serena que se poderia imaginar, mesmo já um tanto prejudicado pelas tantas latinhas e os tantos goles na cachaça refinada que o aniversariante tinha ganho de presente (é... nessas horas não se perdoa nem os presentes).

Disse ele:

"Pois é... se quando começamos a fazer os buracos para por os morões da cerca, tivéssemos plantado mudas de eucalipto, para servir de mourões vivos, com certeza que a cerca ficaria pronto mais cedo".

A verdade mexeu com os brios de todos os amigos, numa revolta geral, principalmente do dono da futura cerca, mas ninguém se propôs a suspender a costela e ir fincar os mourões.

Claro, ficaram revoltados, mas tiverem que engolir a seco a mais nítida verdade, a mais lógica conclusão, sobre o que nenhum dos presente ficou com a menor dúvida. Muito menos eu.
E tomara que tal cerca realmente demore. Assim serão outros encontros, outros churrascos, outros dias de muita manguaça e conversas fiadas para embalar os belos finais de semana que estamos vivendo. E se o maldoso estiver certo, isso demorará pelo menos uns cinco anos, pois, é o tempo que levariam as mudas de eucalipto para virar mourão.


 
EACoelho
Enviado por EACoelho em 22/09/2015


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